















Mide Plácido e o toque da superfície fotográfica
Uma trabalha mais que a outra.
Dividem o peso dos anéis.
Uma nunca aprendeu a escrever.
Com isso a outra tornou-se mais silenciosa, mais firme, mais acostumada ao adeus. Em alguns gestos entram as duas
numa mesma coreografia
como quando é necessário contar algo mais que cinco.
Aceitam as manchas dos anos
como solteironas
que envelhecem juntas.
Mãos de Ana Martins Marques
Escrevo este texto, ou ao menos o inicio, à mão. Não seria justo adotar outra metodologia de escrita para desvendar as imagens de Mide Plácido1 que tanto valorizam esses membros, categorizados como duplos e espelhados do corpo humano.
A mão como recorte e temática atravessa a história da representação e da visualidade, seja na arte rupestre da cultura magdaleniana, retomada milhares de anos depois por Marguerite Duras (1914-1996) em seu filme Les mains négatives (1978), seja os desenhos e fotografias das próprias mãos feitas por Helena Almeida (1934-2018) na década de 1970. Faltam dedos para elencar os inúmeros artistas que, em seus desenhos, pinturas, colagens e fotografias sublinham tal parte do corpo. Estranho não parece ser a recorrência do ícone; estranho é pensar como não nos cansamos delas, como há algo sempre surpreendente em evocar “as duas solteironas que envelhecem juntas”.
Na constatação da presença que atravessa a história da arte, pergunto-me se as recentes escolhas por termos como “Artes Visuais” têm sentido. Não seria ainda mais justo pensar naquelas artistas que se atrevem nas linguagens do desenho, da colagem e da fotografia a pensarem os seus trabalhos como “linguagens do toque”? Linguagens de um fazer que não atravessa exclusivamente os olhos e que, portanto, se revela profundamente em conhecer o mundo pelo tato?
Quem já adentrou os processos íntimos do fazer fotográfico bem sabe que no dia a dia do ateliê não é apenas o olho guardião da imagem. Se focar, perceber a luz e decidir sobre um enquadramento parecem tarefas privilegiadas e asseguradas pela
visão, sabemos que, num quarto escuro, pouco ou quase nada se vê. O (re)conhecimento do mundo passa a depender daquilo que se toca. Saber utilizar um saco escuro, saber carregar um filme numa espiral, saber contar quantas folhas fotossensíveis há numa caixa, é tarefa para as pontas dos dedos. Saber carregar uma câmera, sentir o peso da sua ferramenta, deslizar a objetiva, convoca a conexão entre o dizer das falanges com o fitar da visão.
Ainda que o trabalho de Mide Plácido no âmbito da mostra Idadismo: que bicho é esse seja majoritariamente a partir de técnicas fotográficas digitais, é assim que ele nos instiga. A fotógrafa faz uso de diferentes aplicativos, conforme a sua conveniência, para administrar o arquivo deste projeto que tem aproximadamente dois anos de coleta. Sua investigação coloca em questão os planos da nossa linguagem multifacetada.
Os gestos são linguagem e constituem discursos: sejam, por vezes, mais evidentes em idiomas inteiros feitos através desta linguagem dos sinais, sejam em movimentos incorporados por aqueles que não dominam essa língua mas que introduzem, em seu cotidiano, o seu pequeno dicionário de acenos. Talvez, não à toa, o artista Bruno Munari (1907-1998) esteve igualmente fascinado quando compilou o seu “Suplemento ao dicionário italiano”, uma publicação magistral de 1963 que nos apresenta e codifica o significado de expressões gestuais muito correntes na cultura italiana a partir de entradas de texto e de um belíssimo ensaio fotográfico.
Simone de Beauvoir tinha 62 anos quando publicou o seu livro A velhice, em 1970. A obra impactou profundamente os estudos nas ciências humanas, redirecionando pesquisas em diferentes áreas do saber tais, como sociologia, psicologia, psicanálise, filosofia, literatura e as artes em geral, mas também nas áreas da saúde como gerontologia, enfermagem e fisioterapia. A obra caracteriza-se como um estudo que se posiciona assertivamente e não teme o seu caráter denunciativo e reflexivo sobre as violências lançadas às pessoas mais velhas, destrinchando as práticas sociais de desumanização desses sujeitos e desvelando esse “último tabu”. Apontando a forma como lidamos com a velhice como sintoma do nosso fracasso civilizacional , Simone afirma que nenhum indivíduo “deveria chegar ao fim da vida com as mãos vazias”. Quando Mide se lança à tarefa de destrinchar as experiências e afetos que atravessam o processo de envelhecimento, o tempo dobra-se e o ano de 2025 toca 1970. Mide preenche as mãos daqueles que eventualmente são vistos como “outros”, sobretudo de pessoas inseridas na categoria social “mulher”.
Sinais de Espera de Mide Plácido é um ensaio visual que agrega fotografias, vídeos e colagem, desenvolvido entre 2024 e 2025, no qual a artista faz uso de registros fotográficos das mãos de sua mãe e os mescla com elementos estruturantes da natureza e do seu entorno. Na exposição Idadismo: que bicho é esse, a artista elege um conjunto de fotomontagens para apresentá-lo tanto como díptico emoldurado quanto em formato instalativo. Este último provoca uma sensação de flutuação a partir da suspensão das imagens em uma grelha e sustentadas por fios pretos. Em ambos os casos, a ideia de dupla ou de múltiplas imagens em grade, nos suscita o procedimento de montagem. Sobre isso, é curioso notar que tanto na superfície da imagem, dentro de cada plano, quanto no momento de apresentação e organização, Plácido investe nessa operação. Torna-se assim uma dupla operação que enfatiza a ideia de edição, colagem e diálogo.
Ainda na exposição, encontramos sobre um plano cinzento, de textura irreconhecível, entre o orgânico e o sintético, um par de mãos a friccionar as suas palmas. Trata-se do vídeo que igualmente acompanha a série Sinais de Espera. O acúmulo de vozes femininas rondam sobre a temática do tempo e da velhice. A cacofonia da coletividade não nos permite decifrar perfeitamente o discurso, ressoa a multitude. Pouco a pouco, a profusão de relatos desaparece, restando os últimos versos advindos de uma mulher. As mãos, em looping, permanecem em fricção, reconhecendo-se, tocando-se, aquecendo-se, entrelaçando-se. Eis que somos interrompidos por uma canção em inglês, de melodia pop, que transforma aquilo antes tido como sinal trivial em uma coreografia.
Na obra de Mide, as mãos não são quaisquer, tampouco são apenas um arquétipo. A artista elege nomeadamente a sua mãe para participar do processo, formando assim um território próprio e tensionando a intimidade para questões que atravessam o comum. Sinais de Espera dá a ver mãos que tocam a paisagem, a fauna e a flora. São mãos preenchidas de mundo. Mãos que desejam, assim como diria Beauvoir, “viver sem tempos mortos”.
Maura Grimaldi
Lisboa, Novembro de 2025
